As cartas da rapariga que tinha fogo no espírito e gelo no coração.

Ofélia e Ismael são duas pessoas que tiveram o universo nas mãos. Um dia, o universo pareceu-lhes demasiado pesado. Então puseram-no às costas. Davam as mãos e distribuíam o peso, tentando sincronizar os passos ao ritmo dos corações. Um dia, como é da natureza, os passos dessincronizaram-se. Acharam por bem dividir o universo em dois e cada um carregaria a sua parte. Eventualmente, o peso de cada universo pendia para direções opostas. Com tanto esforço, deixaram de conseguir olhar-se, até se perderem um do outro.

Um dia, após eras de solidão e solitude, Ofélia viu-se impelida a falar com Ismael. Tinha de lhe falar. Estava sozinha há demasiado tempo. Onde é que ele estava? Para onde teria vagueado? Para que meandros o teria arrastado o peso do seu universo?

Sem sinal de Ismael, Ofélia decidiu escrever-lhe. Podia ser que o vento o encontrasse, se assim fosse a Vontade.

A primeira carta que ela lhe escreveu foi assim:

“Este texto é longo e pode ser que não o queiras ler, mas ele tem um propósito. Gostava muito que o lesses.

Se te estás a perguntar qual é o propósito, eu digo-te já. Se em algum momento viveste na tua imaginação um futuro incrível para nós, deixa-me dizer-te que isso continua aí. Acredito que não o sintas agora por todos os filtros que o encobrem. Porque o teu universo te pesa e o meu também te pesou por algum tempo. Porque há dor, mágoa, medo, porque finalmente tocámos o ponto em que as coisas se tornam difíceis para serem transformadas. Porque é aqui que começa verdadeiramente a aventura, o desafio. Porque acredito que o que está do outro lado é para lá de épico.

Sempre vivi as paixões de forma intensa. Mesmo intensa. Sempre soube que para mim a vida ideal é partilhando o universo com um companheiro. Acreditei, por vezes, que estava melhor sozinha, mas se for honesta comigo mesma, prefiro caminhar com um companheiro. A minha vida brilha e expande-se na relação com o outro, seja que tipo de relação for. Cresço mais, desfruto mais de mim mesma e sustento a esperança e o êxtase. Gosto muito de estar sozinha, de ter tempo e espaço para mim, de poder expressar-me na minha solitude, mas reservo uma grande parte do meu coração para o encontro com o outro.

À medida que fui caminhando, tenho vindo a fechar-me cada vez mais. O meu universo enegreceu um pouco. Até ao ponto em que é o medo que me pesa. Já não me sei apaixonar. A partir do momento em que sinto este tipo de Amor a fluir em mim, começo imediatamente a dizer a mim própria que não posso, não devo, não está certo e estou errada. Percebes o poder que isso tem? E percebes que isso acontece porque há Amor? E percebes que eu quero libertar-me disso?

Quando nos encontramos pela primeira vez, foi muito claro o sentimento que fluiu em mim: Casa. Era Amor puro, sem condicionamentos ou rótulos, sem formas, expectativas ou cobranças. Não passaram trinta segundos até que o cérebro entrou em cena: “cuidado!”, “não te envolvas demasiado”, “parece bom demais”, “já sabes como estas coisas acabam”… e por aí fora.

Durante o tempo todo em que estivemos a conversar naquele bar, eu vivia a minha bipolaridade: “Wow, isto é brutal! Alto potencial! Isto sim, é um homem!”, — “não dês, não mostres, não seduzas, não te deixes seduzir, protege-te!”.

Senti-me conquistada quando me beijaste, e isso foi importante para mim. Depois, senti-me num impasse. Parte de mim pedia que não me envolvesse logo.

De qualquer forma, entrei na viagem com todas as armas que tinha e sei que isso foi difícil para ti. Não te sentiste aceite e isso é importante. Eu não sabia como abrir esse espaço em mim. Estive sempre escravizada pelo medo. Acho que queria que tu rompesses isso em mim. Que me rasgasses, que encarnasses o teu guerreiro que não desiste, que vai com toda a força em direção ao que quer, como o fazes tão bem em outros lugares da vida. Não sabia mesmo como te acolher, ainda que fosse o que eu mais queria. Estive num impasse o tempo todo em que caminhamos juntos. Às vezes mais confiante, outras vezes nada confiante. Mas nunca estive verdadeiramente dedicada, porque nunca senti que fosses ficar para sempre. Nunca senti que me quisesses dar isso, que quisesses viver isso comigo.

É claro que me questiono se alguma vez quiseste isso com alguém, porque sinto que não abres essa possibilidade em ti. Pelo menos não de forma total. Parte de mim quer acreditar que isso não é verdade. Talvez eu te olhe a partir da negridão do meu universo. Eu vi que te deste, que deste partes de ti, ou formas de ti que se calhar não tinhas dado a ninguém. Mas alguma vez quiseste, para além do medo, viver uma relação verdadeiramente intensa? Épica? Profunda?

Caminhar contigo foi incrível em muitos aspetos e destrutivo noutros. Senti-me verdadeiramente transformada em coisas essenciais e vi uma nova forma de ser aflorar. Senti que ganhei e cresci. Por outro lado, senti-me demasiadas vezes num colete de forças, debaixo de grande tensão e pressão por me sentir insuficiente. Sei que parte disso é responsabilidade minha. A outra parte é a tua “falha” em me conquistares, por não encarares os momentos difíceis como um desafio que queres superar, como o fazes tão bem nos outros lugares da vida. Se isso fosse vivido desta forma, seria diferente? Seria mais leve, mais excitante, mais produtivo? Também percebo que não o fazes porque tens medo de ser rejeitado. Mas eu nunca te iria rejeitar, pelo contrário. Se em todos esses momentos tivesses a certeza de que eu nunca te vou rejeitar, o que farias de forma diferente?

Penso agora na nossa caminhada com alguma distância, mas se calhar ainda é cedo. Pelo menos muita da pressão já se dissolveu. E por mais que eu queira agora negar o que sinto por ti, o facto é que, quando respiro com o coração, a primeira imagem que me surge és tu. Para surpresa minha. Porque eu também, tal como tu, pensei em momentos que o que eu sentia por ti podia não ser suficiente. Procurei sentir e questionar isso, mas não saía do abismo. Não conseguia entender, não conseguia sentir nada. Só medo. Só abismo. Agora, a meio caminho, é isto que acontece. Respiro com o coração e tu apareces. Não sei se é saudade ou hábito, mas se for honesta comigo mesma sou forçada a ver que te amo.

Acho que é raro encontrar alguém tão compatível nos níveis em que nós o somos. É claro que não somos em tudo, mas quem é? Somos compatíveis em coisas que são realmente importantes, pelo menos para mim. Tu não sentes o mesmo? Às vezes penso que isso seria suficiente, mas quando as pessoas têm tanto medo e não se assumem, não invocam a coragem de mergulhar no desconhecido, as incompatibilidades tornam-se a justificação para o abandono. Mas se olharmos para o que é realmente importante nos nossos corações, não achas que temos o que é preciso para criar uma bela história? Porque eu, sinceramente, acho que temos. E acho que há coisas que têm vindo a pôr-se no caminho e a encobrir o que é de real valor. Eu não sou pessoa de desperdiçar coisas valiosas. Embora seja impulsiva e tenha cometido erros graves ao sê-lo.

Será que poderemos um dia tranquilizar-nos juntos? Resistir à pressão, ou até rejeitar a pressão, em vez de nos rejeitarmos um ao outro? Tranquilizarmos a nossa impulsividade? Descansarmos um no outro? Se pensarmos no que há de mais valioso no nosso encontro, não é um pouco absurdo desperdiçarmos isto?

Eu sei que não queres carregar um universo que é um peso, nem eu. E não tem a ver com o tempo, não é por caminharmos juntos há tantas eras que as coisas “já deviam” ser diferentes. Porque tudo se transforma num segundo. Achas que já experimentamos tudo? Achas que realmente já agarramos o momento fulcral de transformar?

Só por isso é que te escrevo. Porque não te senti totalmente consciente e verdadeiro quando disseste que o que sentias não era suficiente. Porque senti a Casa quando te encontrei. Porque te vejo quando respiro com o coração.

O que te acontece a ti quando respiras com o coração?”

De facto, o vento encontrou Ismael.

Não respondeu de imediato à carta da rapariga que tinha fogo no espírito e gelo no coração. Leu silencioso e tenso. Sentiu-se de novo arrebatado pela intensidade dela. Era demasiada. Porque é que ela tem de ser tão densa?, pensou. No entanto, era precisamente essa qualidade que mantinha Ismael atraído. Como um corpo celeste que gravita em torno de um sol misterioso, para sempre servo da força que o puxa e simultaneamente o repele. Ele quer mergulhar no sol, mas teme a morte.

Sorriu.

Sorriu porque, numa fração de segundo, num rasgar do tecido do universo, numa centelha que faiscou quase impercetível, ele sentiu. Sentiu a Casa.

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Delírio

O meu professor de Cultura Contemporânea dizia: “A cultura é um delírio”. Suponho que seja a nossa condição de seres criativos que signifique que de facto a realidade não é nada mais que uma criação.

Pergunto-me se existe a matriz da realidade como algo que a nossa percepção não alcança na totalidade, mas apenas tem vislumbres. Ou então a realidade é de facto uma construção. As ferramentas e os ingredientes estão à nossa disposição, mas nós é que os manipulamos e lhes entregamos significado.

Hoje acordei num abismo. “Não é tudo isto um delírio?” Tudo aquilo ao que nos agarramos para encontrar segurança tem carácter subjectivo e contextual. À medida em que nos vamos abrindo para novas experiências de vida vamos ampliando a nossa percepção, e assim começamos a ter acesso a novas ferramentas e ingredientes da realidade. É isto a evolução: ampliar a consciência. E à medida em que vamos saindo do nosso círculo de segurança – aquilo a que chamamos de realidade – pode ser que também o medo e a rejeição se amplifiquem. Creio que faz parte da condição humana o desejo de estabilidade e de permanência que é, no fundo, o desejo da perfeição, do mais alto, da máxima ordem, de Deus. E como vivemos de projecções – a criação da nossa realidade – é também natural que associemos essa sensação de estabilidade àquilo que nos é mais próximo e imediato – a matéria.

Para além de subjectiva, a realidade também tem o aspecto colectivo, sendo que se trata de uma criação dinâmica e conjunta. Cada um, na sua individualidade é influenciado pela realidade do outro.

A nossa compreensão é dependente dos limites do espectro dimensional que conseguimos alcançar e os próprios limites são dinâmicos e relativos ao posicionamento e amplitude da nossa consciência.

Como estás?

C. Mas tu enquanto indivídua, como estas?
F. Não sei. Enquanto indivídua.. quem é essa indivídua? Será que sou eu? Há varias emoções e sensações que passam por mim que são passageiras.
C. Pronto.. já te disse que essas ervas são para o chá.
F. Enquanto organismo corpo-mente é isso, vou passando por vários estados, mas há uma outra entidade mais profunda que simplesmente é. Sem adjectivos.
C. Isso não responde à minha pergunta.
F. Qual é a resposta que queres?
C. É como eu te perguntar onde estás e tu dizes que as vezes vais de Braga a Lisboa.
F. Então a minha resposta é: estou em trânsito.
C. Pronto.

solidão (como não me [dis]trair).

Vivemos isolados, abandonados, constantemente à procura de compensar a falta de amor.

A solidão é um estado impermanente, é uma sensação. No entanto ela pode permanecer durante eras, pois tem raízes profundas e que não compreendemos na totalidade.

Há pessoas que fazem de tudo para não estarem sós fisicamente, para que não se deparem com o vazio de si próprias. Depois há pessoas que se sentem tão profundamente sós que o sentimento as acompanha mesmo no meio de uma multidão.

O que talvez ainda não tenhamos percebido é que a solidão é uma companhia, não uma ausência. É uma voz interna, um mendigo que carregamos dentro de nós que se alimenta da necessidade. A solidão não é ausência, é necessidade. E a necessidade é sempre um impulso contextualizado. Pode até ser uma presença gigante que preenche o espaço da verdadeira presença, e por isso a impede de penetrar em nós.

Então por onde passa a cura? Talvez primeiro passe por entender os impulsos que actuam e nos totalizam. Porque sinto carência? Não se trata aqui de afirmar que devemos aspirar a ser eremitas, mas sim de transformar um padrão energético instalado; trata-se de tornar a nossa companhia numa excelente e frutífera companhia; trata-se de sair do estado “só estou bem onde não estou” e “só quero quem não conheci”; trata-se de entrar em contacto com a realidade e renunciar à ilusão.

Quando eu renuncio à ilusão a alquimia é activada. Já não consigo (dis)trair-me com qualquer coisa. Já não consigo encontrar compensação em coisas fúteis. Já só tenho a opção de encarar a minha dor e viver nela até que a tensão seja libertada. Porque quando digo “não quero mais viver na ilusão”, a tensão activa-se até que seja verdadeiramente transformada. Não há como voltar à ignorância e inconsciência. Não há anestesia. Não há antídoto para a realidade.

. Não quero aqui dar força a um princípio individualista. O individualismo é perigoso em muitos sentidos – enche-nos de Ego e esvazia-nos de Alma. Também não quero negar o facto de que precisamos uns dos outros, porque isto é, realmente, um facto. Mas quero entender a diferença entre precisarmos uns dos outros porque naturalmente as nossas existências se complementam, e usarmo-nos uns aos outros para suprir carências e impulsos básicos que põem sempre o outro como responsável da minha satisfação ao nível mais baixo. O outro não é visto como uma vida, tal como eu, porque eu vejo-o como o executador de uma função específica na minha vida.

Entender esta diferença pode ser o elemento catalizador para a alquimia da cura. Largar a ilusão do abismo entre mim e o outro. Ver o outro como EU SOU. É isso que significa “Ama os outros como a ti mesmo!” AMAR é SER.

28 Agosto 2015

a vida é misteriosa e mística.

A Ciência não desvenda mistérios, ela simplesmente os expõe e denomina. Quanto mais a Ciência avança, mais mistérios expõe – mais Beleza revela.

Quando entendemos como algo funciona, ficamos mais maravilhados com o fenómeno. É inevitável a rendição à perfeição da natureza e da Realidade.

A busca pela Verdade é um dos propósitos humanos e tem efeito na nossa evolução e realização. Entender, dentro do possível, a Verdade, torna-nos mais conscientes da Criação. Então a ciência não tira a magia às coisas, pelo contrário, ela REVELA a magia das coisas – glorifica a percepção.

Realidade é não-ilusão. Sabemos que o ilusionismo é a tentativa de chegar à magia pela falsidade e a Realidade é a magia. No nosso raciocínio falacioso até chegamos a confundir os dois. E assim vivemos as nossas vidas ilusórias, vagueando por aí com a nossa maleta de ilusionista, cheia de truques e objectos reluzentes. A ilusão é opressora da percepção e enquanto as nossas mentes viverem debaixo deste principio falacioso, seremos sempre oprimidos pelas nossas próprias ilusões.

20 Agosto 1015, Irina Metamorfoses

Princípio.

Princípio. Início. Ponto de partida. FUNDAMENTO.

A diferença entre os princípios humanos e os princípios espirituais é o grau de sustentação de si próprios no esquema cósmico. Os princípios do homem, muitos deles, só vivem ancorados na matéria e precisam de papel e tinta para se fazerem ver e para se fazerem entranhar. Já os princípios do Espírito não só se sustentam a si mesmos, como também são a própria sustentação da realidade. Eles não precisam de ser escritos, porque simplesmente SÃO.

Os princípios humanos, aqueles que são escritos, são uma tentativa imperfeita, mas geralmente bem intencionada de buscar o modelo original e perfeito, onde a Criação se sustenta. Mas estes são, de facto, limitados pelo tempo, espaço e condição humana. São impermanentes na sua natureza porque nascem de um intelecto em evolução. Eles são a forma temporária de uma procura pelos fundamentos eternos.

Há em nós espaços virgens que esperam ansiosos pelo toque subtil da consciência. São virgens porque os nossos sentidos precisam de um desenvolvimento mais profundo para captar os fios que tecem esses lugares.

Agosto 2015

Tédio.

O tédio não é mais que a reacção da mente que se encontra num estado de dependência de estímulos externos e reacções emocionais.
Este incómodo será muito mais produtivo se escutarmos o chamado para dentro, se formos à descoberta dos tesouros internos que escondemos, do que se nos mantivermos numa constante postura de receptáculos carentes de preenchimento. Há um “fundo falso” e é preciso quebrá-lo.

19 Junho 2015

a decisão de agir por amor ou por orgulho.

No conflito com outros seres humanos, percebo os mecanismos separatistas que tomam conta de mim. A minha raiva e frustração por não estarem a corresponder aos meus parâmetros chegam a um nível que me faz sentir totalizada por um impulso de rejeição. Naquele momento não quero ver aquelas pessoas à minha frente, desvalorizo totalmente as sua vidas, claramente muito diferentes da minha. A minha consciência fica posicionada no meu ego, a chafurdar numa poça de orgulho.

Mas essa consciência rapidamente se desfragmenta.

Olho para o meu orgulho e percebo como ele é maquiavélico. Ser orgulhoso é não reconhecer o outro. É não aceitar a sua divina diferença. É não dignificar a sua pessoa.

Então, como aceder ao amor no meio do conflito? Como amar uma pessoa que me produz raiva e rejeição?

Reduzindo-me à minha insignificância.
Se olho para uma pessoa, estou a olhar para Deus, e aí o orgulho dissolve-se.
Se olho para uma pessoa, estou a olhar para toda a dor da sua vida, e aí Deus preenche-me.
Neste olhar, neste encontro, há uma abertura que permite que as Almas se toquem, e aí, pego-lhe nas mãos e digo num sorriso: “está tudo bem”.

Irina Metamorfoses, 7 Julho 2015

diferença e igualdade.

Não há duas coisas iguais. Não há dois corpos iguais. Não há nem dois pensamentos iguais. A própria Natureza se manifesta por esse princípio. Há semelhança, há aproximação, mas o conceito de “igualdade” de uma forma absoluta e total é algo que existe apenas na limitação da compreensão humana. Não há duas pessoas iguais, mas há o princípio da igualdade.

Assumir a diferença é crucial na descoberta do propósito individual de cada um, bem como no exercício da valorização desse processo. Depois, assumir a igualdade, não no sentido reduzido e formal da palavra, mas sim percebendo que é um princípio que efectivamente dá forma ao desenho da humanidade, é essencial na descoberta de um propósito colectivo e na construção de um Homem que sabe Amar.

Esta diferença pode ter, à primeira vista, uma carga separatista, mas deve partir de nós o exercício do discernimento sobre os mecanismos de aceitação e rejeição que actuam internamente, indo além do aparentemente óbvio. A diferença é também um princípio. Ela traduz a nossa individualidade e mostra como somos especiais e únicos, enquanto a igualdade nos aproxima. Esta aliança traz à tona o princípio da complementaridade.

Ao assumirmos e aceitarmos a nossa diferença e ao valorizarmos o facto de que é ela, aliada ao princípio da igualdade, que nos dá lugar – a cada um de nós – na trama que é a humanidade, estamos a fazê-lo também com o outro, dignificando a sua posição, também, no centro do universo.

Irina Metamorfoses, 1 Julho 2015

confiança e humildade.

Fico num limbo interno entre a confiança e a humildade, como se eles fossem opostos. Na verdade, um complementa o outro. Confiança sem humildade é narcisismo e humildade sem confiança é uma espécie de inércia que toca no crescimento da alma.

Por exemplo, para mim é complicado até expor um pensamento desta forma, não só por ser complexo e abstracto, por vir de uma vivência subjectiva, mas também porque as conclusões não são unicamente racionais. Então quando começo frases com a expressão “Na verdade”, imediatamente abano a cabeça em tom de reprovação a mim própria como quem diz “mas tu sabes lá o que é a verdade!”. Mas escrevo na mesma, porque sinto que outra voz em mim fala. Em último caso serão sempre verdades subjectivas, mas tenho a crença/fé/confiança que este conhecimento vem de dimensões que este corpo não alcança.

Irina Metamorfoses, 30 Junho 2015